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TCU admite juntada de documentos em diligência para comprovar condição existente antes da sessão pública

TCU admite juntada de documentos em diligência para comprovar condição existente antes da sessão pública

Equipe técnica do escritório Schiefler Advocacia

Ao julgar representação sobre pregão eletrônico da Universidade Federal Rural da Amazônia, a Primeira Câmara do Tribunal de Contas da União, sob relatoria do Ministro Walton Alencar Rodrigues, reafirmou um limite importante à vedação de “documento novo” nas licitações regidas pela Lei 14.133/2021. A juntada de documento em atendimento a diligência é lícita sempre que se destine a atestar condição já existente antes da abertura da sessão pública, ainda que o papel só chegue aos autos depois dela. A decisão distingue, com clareza, o que é fato novo do que é apenas prova nova de fato antigo.

 

O quadro normativo

O art. 64 da Lei 14.133/2021 é a norma central. Seu caput estabelece que, “após a entrega dos documentos para habilitação, não será permitida a substituição ou a apresentação de novos documentos, salvo em sede de diligência”, para (I) “complementação de informações acerca dos documentos já apresentados pelos licitantes e desde que necessária para apurar fatos existentes à época da abertura do certame” e (II) atualização de documentos vencidos após o recebimento das propostas. O § 1º permite sanar erros ou falhas “que não alterem a substância dos documentos e sua validade jurídica”.

A chave do dispositivo está na expressão “fatos existentes à época da abertura do certame”. O que a lei proíbe é o licitante melhorar sua situação jurídica depois de conhecidos os lances, obtendo uma qualificação que não possuía. O que a lei não proíbe é demonstrar, por documento posterior, aquilo que já era verdadeiro no dia da sessão. Somam-se a isso os princípios do art. 5º da mesma lei, entre eles a razoabilidade, a competitividade e a seleção da proposta mais vantajosa.

 

O caso concreto

A UFRA licitou, pelo Pregão Eletrônico 90002/2025, serviços contínuos de manutenção preventiva e corretiva de equipamentos de refrigeração e climatização, com dedicação exclusiva de mão de obra, ao valor estimado de R$ 12.801.103,86. O item 8.20.2 do edital exigia, junto à planilha de custos, documento comprobatório do enquadramento sindical da licitante.

Uma das concorrentes não apresentou a carta sindical no momento previsto e foi desclassificada. O documento apresentado depois estava datado de 22/1/2025, portanto muito anterior à sessão pública de abertura das propostas, ocorrida em 19/11/2025. Mesmo assim, o pregoeiro (que chegou a autorizar a juntada e depois voltou atrás) considerou tratar-se de documento novo, entendimento respaldado por parecer da Procuradoria-Geral Federal junto à Universidade. A empresa desclassificada havia ofertado R$ 9.431.999,88, cerca de 23% abaixo do orçamento estimado e R$ 454.188,02 por ano abaixo da proposta vencedora.

A questão jurídica, portanto, não era saber se a Administração podia exigir a carta sindical, mas se podia recusar prova posterior de enquadramento que indiscutivelmente já existia.

 

O entendimento fixado

O Tribunal respondeu que não. O enunciado extraído da deliberação é direto:

“É lícita a admissão da juntada de documentos, em atendimento a diligência, durante as fases de classificação ou de habilitação, que venham a atestar condição pré-existente à abertura da sessão pública do certame (art. 64, inciso I, da Lei 14.133/2021), sem que isso represente afronta aos princípios da isonomia e da igualdade entre as licitantes.”

O voto condutor é ainda mais incisivo ao separar os conceitos: “a correção de falha formal não equivale à admissão de novos documentos”, pois “o fato objeto de prova, qual seja, a inscrição sindical, era anterior à sessão de abertura das propostas”. A desclassificação foi qualificada como formalismo exacerbado, em linha com precedentes consolidados (Acórdãos 2443/2021 e 602/2025, ambos do Plenário).

Merece registro um segundo argumento, de alcance geral: a Universidade sustentou que havia desclassificado outras empresas pelo mesmo fundamento e que, por isso, teria agido com isonomia. O Tribunal rejeitou a tese em frase que gestores fariam bem em anotar: “a aplicação uniforme de uma interpretação incorreta não a torna correta, mas apenas estende o formalismo desarrazoado a outras empresas participantes”. Tratamento igual não convalida critério ilegal.

Note-se, ainda, que o enunciado alcança expressamente as fases de classificação ou de habilitação. Embora o art. 64 esteja inserido no capítulo da habilitação, o caso versava sobre documento vinculado à planilha de custos, examinada no julgamento das propostas: o TCU estendeu a lógica do saneamento documental a essa fase, ampliando o campo prático da tese.

 

As implicações práticas

Para o gestor público, o teste é objetivo e deve preceder qualquer desclassificação: o fato que o documento comprova é anterior à sessão? Se for, a diligência é o caminho, não a exclusão do licitante. Vale a advertência de que parecer jurídico favorável não blinda o ato quando parte da mesma premissa controvertida (o parecer reforça a motivação formal, mas não supera a objeção de mérito).

Há um segundo alerta processual no acórdão: a motivação do ato de desclassificação é aquela contemporânea à sua prática. A vencedora tentou justificar a exclusão da concorrente com base em supostos vícios das planilhas de custos, mas o Tribunal recusou o argumento porque essas razões não constavam da motivação original. Fundamentos novos não podem ser inventados depois, em resposta ao controle externo.

Para o licitante, a orientação é preservar e demonstrar a anterioridade: documentos datados, registro das mensagens do chat e das diligências concedidas, e recurso administrativo que ataque expressamente a distinção entre fato novo e documento novo. Foi essa distinção, e não a discussão sobre a validade da cláusula editalícia, que sustentou a procedência da representação.

Quanto ao desfecho, o Tribunal calibrou a resposta: em vez de anular o contrato em execução, determinou à Universidade que se abstenha de prorrogar o Contrato 7/2026, cuja vigência se encerra em 23/2/2027, prazo suficiente para nova licitação. Deu ainda ciência sobre a vedação a consórcios sem motivação registrada no estudo técnico preliminar e no termo de referência e sobre o superdimensionamento do orçamento, que inflou as exigências de qualificação econômico-financeira. Nesse ponto, fixa diretriz útil: em registro de preços, os percentuais de patrimônio líquido e de capital circulante líquido devem incidir sobre a estimativa de gastos anuais, e não sobre o valor total da ata.

 

 

Acórdão 4523/2026-Primeira Câmara, rel. Min. Walton Alencar Rodrigues, sessão de 11/8/2026.

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Como citar e referenciar este artigo:
SCHIEFLER ADVOCACIA. TCU admite juntada de documentos em diligência para comprovar condição existente antes da sessão pública. São Paulo: Schiefler Advocacia, 2026. Disponível em: https://schiefler.adv.br/tcu-admite-juntada-de-documentos-em-diligencia-para-comprovar-condicao-existente-antes-da-sessao-publica/ Acesso em: 23 out. 2026
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